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Do mundo da lua à intencionalidade

Atualizado: 26 de nov. de 2024

O lugar onde passei minha infância tinha suas peculiaridades. Era sombreado por muitas árvores, e a luz entrava tímida, filtrada pelas folhas densas, criando um ambiente quase introspectivo, com um peso difícil de ignorar. As cores da casa, das cortinas, do chão e da mobília, de alguma forma, me perturbavam; meus olhos não encontravam prazer nelas. Exceto por um fogão e um armário amarelo, que, inexplicavelmente, me traziam alegria. Foi nesse cenário que minha imaginação florescia.

Mas, ainda assim, havia algo em mim que insistia em encontrar beleza, mesmo onde ela parecia não existir. Era como se minha mente soubesse que, para sobreviver àquele ambiente, eu precisava criar meu próprio mundo. E assim, me desligava. Não ouvia as palavras que cortavam o ar, não sentia o peso da casa. Apenas me perdia nos detalhes.

Os veios da madeira, os desenhos nas rachaduras do chão, as texturas que surgiam com a água que escorria depois da chuva – tudo isso se tornava meu universo particular. Ali, nas pequenas coisas, eu encontrava um brilho discreto, quase escondido, que me fazia esquecer do resto.

Naquele ato de contemplação, aprendi a enxergar beleza onde, à primeira vista, parecia não haver nada. E hoje percebo que, talvez, tenha sido naquele quintal, naquela cas com tons azulados e esverdeados, que meu olhar começou a ser treinado para encontrar a luz nas frestas da casa de madeira, no chão dos padrões que as folhas faziam no chão de terra.


"Perder-me nos detalhes não era distração. Era meu jeito de criar um refúgio, de transformar o ordinário em extraordinário, de sobreviver – e, no processo, encontrar de certa forma poesia no caos."

Mais tarde, a descoberta do TDAH trouxe ainda mais sentido: meu jeito de observar e buscar padrões não era distração; era minha forma única de me conectar ao mundo.


Transformar fascínio em arte


"Não é só sobre o que você vê, mas sobre como isso toca você."


O que eu não sabia naquela época era que aquele olhar curioso seria a base do meu trabalho como fotógrafa. Porém, transformar esse fascínio infantil em algo tangível, talvez em arte, exigiu muito estudo. Descobri que a composição é uma ponte entre a intuição e a intenção.


Reconhecer padrões, cores e formas não é o bastante. Para contar histórias por meio da fotografia, é preciso transformar o que enxergamos em algo que outros também possam sentir. Aprendi é que a composição fotográfica não é só sobre o que vemos, mas sobre o que queremos fazer sentir.


O que parecia distração virou a minha arte


Muitas pessoas me perguntam se fotografar é um dom natural. Talvez o fascínio que sempre tive pelos padrões, cores e texturas seja, de fato, algo que nasceu comigo. Mas transformar essa fascinação em um olhar fotográfico não foi algo automático; exigiu estudo, tempo, prática e intenção.

A composição é, acima de tudo, sobre intencionalidade. O que antes era apenas um olhar curioso e descompromissado tornou-se um esforço consciente, um exercício de enxergar como os elementos se conectam, como podem se equilibrar ou contrastar para contar uma história. É um aprendizado constante, uma prática diária de aprender a ver.


Hoje, ao fotografar, percebo que aqueles momentos no quintal da infância nunca foram realmente "perdidos". Foram, na verdade, o solo onde meu olhar começou a germinar, onde minha curiosidade encontrou liberdade para crescer. É essa experiência que carrego comigo e que desejo transmitir por meio das fotos: um convite para olhar o mundo com outros olhos, para descobrir o extraordinário no trivial, o belo onde ele menos se revela.


Porque a beleza nem sempre está na superfície óbvia. Às vezes, ela não está naquele plano imediato que todos veem. Ela pode ser sutil, escondida, implícita – uma sensação que só se revela a quem se permite desacelerar, observar, se perder na contemplação e, então, encontrar.

A fotografia é minha forma de lembrar a mim mesma – e ao mundo – que há algo extraordinário nos detalhes, mesmo quando não os notamos. No meio da correria, do caos, esquecemos de olhar. Mas é ali, no invisível e no imaginado, que a verdadeira magia acontece.


Se você chegou até aqui, me conte nos comentários a sua relação com a fotografia!


Até mais, Fran Jacques.

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